“A floresta não pode esperar”. Foi com este alerta curto e certeiro que Ima Célia Vieira, pesquisadora do Museu Goeldi, abriu os debates do IV Encontro Regional de Botânicos do Norte (ERBOT Norte 2026), realizado de 26 a 30 de abril, na Universidade Federal do Pará, em Belém.
Com a palestra magna intitulada “Plantas, Povos e Paisagens: uma botânica para a Amazônia que queremos”, a cientista, que também é assessora da presidência da FINEP e coordenadora do INCT Nexus, chamou atenção para as muitas lacunas de conhecimento sobre a flora e os processos ecológicos de ecossistemas amazônicos. Estima-se que, no ritmo atual de coleta, seriam necessários 770 anos para avaliar toda a flora da região.
A pressão do desmatamento e o aumento da degradação florestal tornam o cenário ainda mais grave. Atualmente, quase 20% do bioma já foi alterado, o que representa um sinal de alerta. Estudos indicam que, entre 20% e 25% de desmatamento combinado ao aquecimento global, a Amazônia oriental pode atingir um ponto de não retorno, isto é, o ecossistema entraria em colapso e perderia sua capacidade de regeneração.
Em sua palestra, Ima Vieira defendeu que a botânica amazônica precisa avançar em três frentes: descrever e catalogar espécies antes que desapareçam, conectar o conhecimento científico aos saberes dos povos indígenas e comunidades tradicionais, e compartilhar dados de forma aberta e acessível. Para ela, territórios de populações indígenas e tradicionais são “laboratórios vivos de biodiversidade” e o conhecimento tradicional deve ser reconhecido como co-autoria científica.
A pesquisadora destacou ainda o potencial de novas tecnologias como DNA ambiental, LiDAR e inteligência artificial para acelerar os inventários em regiões remotas, mas ressaltou que nenhuma ferramenta substitui o que pode ser perdido antes de ser documentado.
Avanço em pesquisas nos territórios amazônicos
A participação da equipe do INCT Nexus no ERBOT Norte 2026 também evidenciou o trabalho dedicado a experimentos e análises dos impactos das transformações no uso da terra na região. A programação do encontro contou com dois simpósios propostos pelo INCT Nexus. O primeiro teve como tema “Ecologia e conservação na cadeia de produção do açaí na Amazônia: desafios para a sustentabilidade socioambiental” e contou com a participação de Madson Freitas, Marta Oliveira da Silva, Márcia da Silva Anjos e Andrey Mendonça de Souza, do Museu Paraense Emílio Goeldi; do Dr. Charles Clement, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA); de Márcia Motta Maués, da Embrapa Amazônia Oriental e Antônia Maria Monteiro da Silva, da UFPA.

O tema do segundo simpósio foi “Dinâmicas ecológicas de regeneração em florestas nativas e sistemas de restauração ativa” apresentado pelos bolsistas Fernanda Ribeiro, da Universidade Federal de Santa Catarina; Eduardo Marques e Lorrayne Gonçalves, da UFRA; e Luiz Cardoso, do Instituto Federal do Pará (IFPA), sob a moderação do pesquisador Divino Silvério.


Além disso, o pôster “Atributos do solo modulam a densidade e a riqueza de plantas em florestas e pastagens na Amazônia Oriental” de autoria de Luiz Antônio Soares Cardoso, Izildinha Miranda, Ima Célia Vieira, Fernando Elias e Divino Silvério foi apresentado no painel nº26 durante a programação do evento.
Com isso, o INCT Nexus reforçou seu compromisso com a produção de conhecimento sobre as dinâmicas de uso da terra na região e o estudo de alternativas aos avanços dos processos de degradação ambiental aliando o conhecimento científico com o conhecimento de povos e comunidades tradicionais parceiros da iniciativa.

