Expedição científica avalia impactos dos incêndios florestais no solo de florestas da Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns

A Reserva Extrativista (Resex) Tapajós-Arapiuns, localizada no município de Santarém, no estado do Pará, recebeu uma expedição científica no período de 8 a 18 de fevereiro de 2025. A atividade ocorreu no âmbito do projeto INCT NEXUS – Perturbações Antrópicas, Novas Trajetórias Florestais e Sustentabilidade na Amazônia, que investiga os efeitos dos incêndios florestais sobre as florestas. A expedição contou com a participação de pesquisadores do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), da Universidade Federal do Pará (UFPA) e da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA).

A equipe foi liderada pela Dra. Ima Vieira, com a colaboração do Dr. Laszlo Nagy, da Dra. Erika Buscardo, da Mestre e assistente de campo Jéssica Anastácia e do doutorando Vynicius Barbosa e mestrandos Juliana Assunção e João Matheus Sales. Durante os dez dias de expedição, foram realizadas coletas de amostras de solo em áreas de floresta afetadas pelos incêndios uma, duas e três vezes, distribuídas nas comunidades de Jaca, Muratuba, Jaurarituba e Mirixituba. Essas áreas fazem parte de parcelas permanentes estabelecidas desde 2019, que vêm sendo utilizadas para avaliar a recorrência e os efeitos dos incêndios florestais na região.

A equipe investiga como os incêndios florestais alteram as dinâmicas da floresta e a conduz para novas trajetórias ecológicas. O objetivo é analisar os efeitos dos incêndios não apenas sobre o solo, mas também na comunidade vegetal acima do solo, avaliando os atributos como abundância, riqueza e diversidade. Nesta expedição, foram coletadas amostras de solos que passarão por análises químicas, físicas e biológicas para compreender as mudanças ocorridas no solo após os incêndios, identificar o feedback entre a vegetação e o solo e interpretar suas consequências para as florestas futuras.

Amostras de solo sendo coletadas pela Dra, Erika Buscardo e o mestrando João Matheus Sales na Reserva Extrativista Tapajós Arapiuns, Pará.

Nesse sentido, o projeto busca entender quais as trajetórias que as florestas estão seguindo diante desse driver de degradação. Isso inclui alterações na composição funcional, taxonômica e filogenética dentro da ecologia de comunidades vegetais. A equipe também investiga as transformações no solo para entender como essas mudanças impactam a biodiversidade, além de sua influência nas trajetórias ecológicas das florestas.

Toda as coletas foram realizadas com a ajuda de membros das comunidades dando suporte em campo, como por exemplo, fornecendo transporte até as áreas com parcelas estabelecidas, bem como reconhecendo das áreas queimadas, e relatando incêndios recentes que podem ter atingido as parcelas estabelecidas anteriormente evoluindo para um histórico de incêndio de até três vezes.

Floresta queimada duas vezes na Reserva Extrativista Tapajós Arapiuns, Pará.

Para os pesquisadores, trabalhar com membros das comunidades da Resex permite conhecer mais sobre a realidade local e entender como eles sentem o impacto do fogo em suas comunidades. Durante as atividades em campo, os moradores relataram que após o fogo atingir seus territórios houve um aumento no aparecimento de cobras peçonhentas, bem como diminuição de caça que servia para a alimentação da comunidade. Dessa forma, a pesquisa revela que os impactos dos incêndios acidentais na região vão muito além dos estratos florestais e do solo, pois refletem também na piora das condições de vida para os povos que dependem diretamente dessa floresta.

A expedição também promoveu entrevistas com membros das comunidades realizadas pela Dra. Ima Vieira e Me. Jéssica Anastácia e uma visita aos observatórios Tupinambá e Curupira, localizados nas comunidades de Jauarituba e Muratuba, respectivamente. O principal objetivo dos observatórios é introduzir plantas junto à regeneração natural, que sejam úteis tanto para recuperação de áreas que foram queimadas quanto para uso da comunidade como espécies de andiroba, cumaru e uxi, fortalecendo a estratégia de restauração biocultural.

Equipe de auxiliares de campo da Aldeia Jauarituba com pesquisadores na Reserva Extrativista Tapajós Arapiuns, Pará.

No entanto, a missão dos observatórios tem sido ameaçada pelo aumento dos índices de incêndios florestais na região. Em 2023, por exemplo, esses espaços foram atingidos pelas chamas que causaram a morte de inúmeras mudas introduzidas. Para diminuir os riscos em secas futuras, as comunidades fizeram um aceiro ainda mais largo. Aliado a isso, a pesquisadora Jéssica Anastácia conseguiu estabelecer com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) um compromisso para a oferta de um curso de formação para a brigada comunitária da Resex Tapajós-Arapiuns.

As expedições científicas na Resex e a troca de conhecimentos com as comunidades locais têm servido de base para diferentes estudos publicados em artigos científicos. No trabalho “O Papel do Banco de Sementes do Solo na Recuperação e Restauração de uma Floresta Amazônica de Terra Firme Queimada” (Oliveira et al., 2024), os autores alertam que embora o banco de sementes do solo em florestas amazônicas de terra firme tenha uma alta densidade de sementes (837,5 sementes/m²), o banco de sementes da Resex Tapajós-Arapiuns é naturalmente pobre em espécies. Os pesquisadores observaram que um pequeno conjunto de espécies representa mais de 80% de todas as sementes, sendo elas principalmente espécies pioneiras de ciclo de vida curto e que necessitam de luz.

A pesquisa mostra ainda que o banco de sementes analisado não contém sementes da flora de florestas maduras, ou seja, as espécies de árvores com sementes grandes ou espécies tolerantes a sombra, que compõem a maior parte da floresta original antes dos incêndios florestais.

Os incêndios florestais, por sua vez, também são uma ameaça crescente para as florestas tropicais, especialmente às “florestas sociais” salvaguardadas por comunidades tradicionais na Amazônia (Pereira et al. 2025). Os autores afirmam que essa degradação afeta a reprodução social das comunidades locais, e seus territórios. Outro estudo de Pereira e colaboradores publicado em 2024, observou reduções significativas de 70% na biomassa acima do solo após dois incêndios florestais, que também levam à perda de espécies e mudanças taxonômicas, alterando a composição e a recuperação dessa floresta.

Em pesquisa já foi relatado que as comunidades indígenas na Resex Tapajós-Arapiuns percebem sua vulnerabilidade à degradação florestal causada pelos incêndios florestais, especialmente durante períodos de secas severas (Pereira et al., 2025). Nesse sentido, esta expedição realizada para coletas de solos vem para somar com os trabalhos que já foram publicados e contribuir para a construção de estratégias de manejo e conservação da biodiversidade de espécies vegetais, e restauração biocultural na Resex Tapajós-Arapiuns.

Texto por: Juliana Assunção e Vynicius Barbosa.

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